ADC: Onde estamos e para onde vamos?

O papel cada vez mais relevante dos anticorpos-fármacos conjugados (ADC) no tratamento de patologia oncológica foi o centro do debate no simpósio promovido pelas Daiichi Sankyo & AstraZeneca e moderado por Sandra Ponte, enfermeira da ULS Lisboa Ocidental e presidente da AEOP.

Na sua intervenção, Vanessa Núñez, da ULS Santa Maria, procurou apresentar recomendações abrangentes de âmbito nacional para profissionais de enfermagem, com o objetivo de ajudar a uniformizar e protocolar a administração e a gestão dos eventos adversos associados ao tratamento com trastuzumab deruxtecano (T-DXd) na pessoa com cancro de mama.

O T-DXd é um ADC direcionado ao HER2, um reconhecido biomarcador no cancro da mama, sendo que a sua sobre-expressão ou amplificação ocorre em cerca de 15-20% dos casos de cancro da mama invasivos. É constituído por um anticorpo monoclonal humanizado anti-HER2, do tipo IgG1, com a mesma sequência de aminoácidos que o trastuzumab, ligado covalentemente ao deruxtecano, um derivado do exatecano com ação inibitória da topoisomerase I. 

Quanto ao seu mecanismo de ação, o T-DXd atua ligando-se aos recetores HER2 presentes na superfície membranar das células tumorais, sendo internalizado. Após a internalização, as enzimas lisossomais presentes nas células tumorais clivam a ponte peptídica, libertando as moléculas de deruxtecano. Essas moléculas inibem a topoisomerase I, interferindo com a replicação do ADN, com consequente apoptose celular. O deruxtecano libertado pode ainda atravessar a membrana celular, exercendo atividade nas células tumorais adjacentes.

Vanessa Núñez abordou ainda a gestão dos principais adventos adversos decorrentes do tratamento com T-DXd, tais como a doença pulmonar intersticial (DPI)/pneumonite, neutropenia ou diminuição da fração de ejeção do ventrículo esquerdo, detalhando as necessárias modificações na terapêutica em cada um dos casos.

Gestão de eventos adversos emergentes

A segunda intervenção do simpósio esteve a cargo de Bárbara Lamas, do IPO Porto, que abordou a temática dos ADC no cancro da mama avançado (CMa) e a gestão de eventos adversos (AD) emergentes com estes medicamentos.

No tratamento de doentes com CMa com ADC, os EA mais frequentes são, dependendo do fármaco, a DPI/pneumonite, a mucosite oral/estomatite e inflamação da mucosa, os eventos relacionados com a superfície ocular e as náuseas/vómitos. Em cada um dos casos, o papel do enfermeiro é fundamental e exige medidas específicas, devendo ser o mais individualizada possível. Mas, de uma forma geral, na gestão dos EA emergentes associados a terapêutica com ADC, cabe ao enfermeiro conhecer a história clínica (comorbilidades, fatores de risco, terapêutica previamente administrada) do doente que têm à sua frente, capacitar o doente e familiar para a deteção de sinais e sintomas de complicações, consciencializar o doente para a importância da comunicação dos sinais precocemente junto da equipa de saúde e avaliar sinais e sintomas em todos os ciclos.