Sobreviventes de cancro: Que necessidades e desafios?

A sessão “Sobrevivência ao cancro: Que necessidades?” – moderada por Ana Cristina Ferreira (IPO Coimbra) e Elisabete Valério (IPO Porto) – promoveu uma profícua discussão em torno da figura do sobrevivente de doença oncológica, das suas necessidades e dos desafios que surgem após o tratamento. Profissionais de saúde da área da Enfermagem Oncológica partilharam estratégias e boas práticas para melhorar a resposta e o acompanhamento a quem sobrevive ao cancro, focando os principais aspetos físicos, emocionais e sociais dessa jornada.

Tiago Peixoto, da ESEP, detalhou o percurso de adaptação da pessoa sobrevivente à nova condição de vida, começando por esclarecer o conceito de sobrevivente de cancro. “Apesar de parecer simples, o conceito de sobrevivência ao cancro é tudo menos isso. É um conceito complexo porque envolve múltiplas dimensões: clínicas, psicológicas, sociais e culturais. E porque levanta desafios a curto, médio e longo prazo”, frisou o enfermeiro, acrescentando que “terminar o tratamento não é o fim da experiência, na medida em que persistem necessidades, muitas vezes invisíveis, que exigem atenção”.

Assim, esclareceu, este conceito é dinâmico, “porque evolui com o tempo: mudam-se os medos, as necessidades, os objetivos e até a forma como cada pessoa vê a sua identidade”. Também é individualizado, “porque cada pessoa vive a sua experiência de forma única” e é não linear, já que “o percurso inclui altos e baixos, efeitos tardios, novas fases de tratamento ou reinterpretações do prognóstico, exigindo adaptação constante”. É ainda multifacetado, uma vez que “ultrapassa o corpo, envolvendo também o plano emocional, cognitivo, social, económico e espiritual”.

No fundo, “ser sobrevivente não é um ponto de chegada nem um rótulo com data marcada. É um processo contínuo de adaptação, com significados diferentes para cada pessoa”, sustentou o preletor.

Atualmente, os cuidados prestados aos sobreviventes de cancro são, em grande parte, fragmentados e centrados na fase aguda da doença, com foco principal no tratamento oncológico e na deteção de novos cancros. Na ótica de Tiago Peixoto, falta uma abordagem verdadeiramente personalizada, em que o sobrevivente seja reconhecido não apenas como recetor de cuidados, mas como um participante ativo na gestão da sua própria saúde. A literatura defende um modelo de cuidados coordenados e centrados na continuidade, que vá além da fase de tratamento e acompanhe toda a trajetória do sobrevivente. Assim sendo, “outro aspeto fundamental é o reforço da abordagem biopsicossocial, que vá além da cura da doença. A qualidade de vida (QV) deve ser um objetivo central em todo o processo de cuidado”, concluiu o enfermeiro.

Intervenções educacionais de enfermagem na promoção da QV

“Cuidar do sobrevivente é tão importante quanto tratar a doença”. Foi desta premissa que partiu Carina Raposo, da ULS Santo António, para partilhar com os colegas alguns exemplos de intervenções educacionais de enfermagem na promoção da QV em sobreviventes de cancro.

De acordo com a enfermeira, “cuidar do sobrevivente requer atenção contínua face às mudanças experienciadas e os enfermeiros são elementos-chave na promoção da autogestão e do autocuidado e na implementação de intervenções que promovem, pela relação terapêutica, uma transição saudável”.

Como tal, “urge implementar modelos de cuidados de sobrevivência baseados em identificação de risco, integrando dados populacionais, avaliação de comorbilidades, sintomas persistentes e qualidade de vida”, apontou a preletora, salientando, ainda, que, no âmbito da sobrevivência ao cancro, “são necessárias mais investigação e definição de políticas e de modelos estruturados de acompanhamento”.

Os enfermeiros & eu

A intervenção muito emocionada de Marta Silva Pereira, uma jovem engenheira civil sobrevivente de cancro, comoveu e arrancou um enorme aplauso a toda a plateia da AEOP18. A relação que estabeleceu com os profissionais de enfermagem desde o momento do diagnóstico – em que um abraço desse primeiro enfermeiro com quem contactou foi crucial para confiar e avançar com a sua jornada de tratamento – até hoje, “é em si mesma terapêutica”, sublinhou.

A partilha de Marta Silva Pereira desencadeou uma outra partilha semelhante, vinda de uma enfermeira que estava na assistência, também ela sobrevivente de cancro, que hoje trabalha lado a lado com os enfermeiros que cuidaram de si durante a doença oncológica. “Hoje sou uma pessoa e uma enfermeira diferente do que seria se não tivesse passado por isto”, admitiu, com a voz embargada pela emoção.