A terceira e última mesa do V Simpósio Ibérico de Radioncologia configurou uma oportunidade única de reflexão e debate acerca da evolução radioterapia, em que profissionais de enfermagem desta área partilharam uma visão aprofundada sobre as perspetivas atuais, bem como sobre as tendências e transformações que moldarão o futuro desta abordagem terapêutica essencial no tratamento oncológico.
O foco da discussão – moderada por Isabel Corte Real, da ULS Santa Maria – recaiu, essencialmente, sobre o reconhecimento dado ao papel das equipas de enfermagem e sobre os diferentes modelos organizativos adotados pelos serviços de Radioterapia a nível nacional, com uma comparação entre unidades públicas e privadas.
Numa intervenção dedicada ao tema “Eficiência e Sustentabilidade – um olhar para o Futuro”, Jorge Freitas, do IPO do Porto, ressalvou que “a enfermagem de radioterapia ainda é um nicho”. Além disso, acrescentou, “ainda é vista, por algumas administrações hospitalares, como um serviço não de ponta, mas da ponta, onde se colocam profissionais sem critério, sem o cuidado de se escolherem profissionais que gostam da área e que, como tal, vão apostar no seu desenvolvimento”.
Apesar de tudo, muito se evoluiu de há uns anos a esta parte, “graças aos grupos de trabalho dedicados a esta área, como o que se desenvolveu no seio da AEOP e a cuja existência se deve o facto de se poder, aos dias de hoje, organizar e realizar uma reunião desta natureza, que já vai na 5.ª edição”, sublinhou o enfermeiro.
Público versus privado
Também Sandra Russo, do IPO Lisboa, admite que houve um grande avanço de há duas décadas para cá, altura em que começou a trabalhar e nem sabia que existiam enfermeiros em Radioterapia.
Desafiada a falar sobre “Avanços, Realidades e Desafios no SNS”, a enfermeira admitiu que é no caos do serviço nacional de saúde que as equipas de enfermagem de Radioterapia se têm desenvolvido. Apesar das dificuldades, Sandra Russo diz que não se vê a trabalhar noutro sítio, atirando, em tom de brincadeira: “provavelmente sofro de síndrome de Estocolmo”.
Apesar do progresso atingido, “sinto que agora há uma certa acomodação face ao que já está padronizado para a organização destes serviços”, adiantou, identificando outros problemas. Desde logo, “a curta visão em termos de gestão de equipas a nível local”, a par de mudanças de fundo nas caraterísticas dos doentes (mais jovens, migrantes) que comportam desafios de monta ao nível da capacidade de resposta instalada e exigem que os enfermeiros se reinventem diariamente.
Por sua vez, Helena Fanica, do Hospital Espírito Santo de Évora e da Joaquim Chaves Saúde, abordou o tema da inovação e sustentabilidade no setor privado, lembrando que das 25 unidades de radioterapia nacionais, 17 são privadas e lamentando que na balança do investimento em tecnologia versus humanização, o desequilíbrio seja grande, com a inovação/tecnologia a pesar mais que os recursos humanos e os enfermeiros a trabalharem “muito sozinhos”.
Medir o que se faz é o grande desafio
Numa perspetiva mais académica, sobre educação e investigação em Radioterapia, Daniel Ferreira, da ESEnfTS/CESPU, sublinhou que “enquanto escolas, temos que formar os enfermeiros de forma competente e entusiasmada”.
De acordo com o enfermeiro, o grande desafio a nível nacional é a medição do trabalho destes profissionais nos serviços de Radioterapia, sendo raras as instituições que disponibilizam métricas/ferramentas/condições que permitam esta medição.