Literacia em Oncologia: Todos contam!

A literacia em saúde, e mais concretamente em Oncologia, é fundamental para capacitar os doentes, cuidadores e familiares a compreenderem o diagnóstico, tratamento e cuidados necessários.

Na sessão “Meet the expert”, moderada pela presidente da AEOP, Sandra Ponte, a presidente da Sociedade Portuguesa de Literacia em Saúde (SPLS), Cristina Vaz de Almeida, explorou este tema essencial para a melhoria da experiência dos doentes oncológicos, focando a forma como a educação e a informação podem fazer toda a diferença na jornada oncológica.

Em Portugal, a taxa de literacia em saúde é baixa (cerca de 50% da população portuguesa tem baixa literacia em saúde), mas esta não é uma realidade exclusiva do nosso país e constitui um desafio internacional. Toda a Europa enfrenta um desafio de saúde pública que consiste em que quase um em cada dois europeus pode não ser capaz de entender material essencial relacionado com a saúde. “Apesar de conseguirem descodificar palavras, frases e até textos, muitas pessoas não conseguem usar a informação escrita contida em livros, jornais, folhetos ou suportes digitais. Apesar de conhecerem os números, grande parte das pessoas não consegue fazer cálculos simples”, frisou a preletora.

Esta baixa literacia em saúde tem consequências, desde logo: faltas frequentes às consultas, formulários de inscrição incompletos, incumprimento da medicação, incapacidade de mencionar medicamentos e explicar o seu propósito, fazer menos perguntas, dificuldade em transmitir uma história coerente e sequencial, entre outras. De acordo com Cristina Vaz de Almeida, “as barreiras de acesso que surgem antes mesmo de os pacientes chegarem aos cuidados de saúde exigem uma integração de medidas de literacia em saúde, bem como a capacitação dos profissionais das áreas de saúde para além das suas competências técnicas”.

Como se promove, então, a literacia em saúde? Segundo a presidente da SPLS, a premissa essencial nesta demanda é a de que “Todos contam!”. São necessárias intervenções combinadas e integradas, multidimensionais, multissetoriais (envolver vários setores como a saúde, social, cultura, economia, política) e interdisciplinares. “É preciso capacitar, envolver as várias dimensões – acesso, compreensão, avaliação, uso de recursos –, criar redes, empoderar, combater desinformação e promover a comunicação em saúde como estratégia”, referiu a preletora, concluindo que “a literacia em saúde salva vidas”. E a comunicação é o pilar destas estratégias, abandonando-se o chavão da “comunicação centrada no doente”, para abraçar a “comunicação com o doente”.

Porque a SPLS tem uma visão holística da literacia em saúde, o projeto ATIVAR é um exemplo dos muitos programas desenvolvidos por esta sociedade, neste caso em Universidades Séniores e Farmácias Comunitárias. É um projeto que promove o uso seguro do medicamento e vacinação no adulto e que conta com o apoio da Ordem dos Farmacêuticos. Tem como objetivo a sensibilização e a motivação através do diálogo e da arte, baseado em conhecimentos aprendidos sobre vacinação e medicação e na cocriação de materiais de comunicação.

O final da sessão ficou marcado pela assinatura de um protocolo de parceria entre a AEOP e a SPLS, que formaliza e sela o compromisso dos enfermeiros oncológicos no sentido do desenvolvimento e reforço da literacia no contexto da Oncologia. Algo que, na realidade, já fazem de uma forma intuitiva e orgânica na sua prática do dia a dia.