Inovação em Hemato-Oncologia: Da quimioterapia aos novos alvos terapêuticos

Nos últimos anos, tem sido de monta a evolução no campo do tratamento das doenças hematológicas. Das tradicionais abordagens de quimioterapia até aos mais recentes alvos terapêuticos, são várias e importantes as novidades que têm revolucionado a prática médica e de enfermagem em Hemato-Oncologia.

Esta temática mereceu destaque na Sessão Educacional II da AEOP18, que foi moderada por Cristina Santos (ULS Coimbra) e Ana Lopes (IPO Porto) e em que Catarina Geraldes, médica do Serviço de Hematologia Clínica da ULS Coimbra, passou em revista os últimos avanços terapêuticos na área da Hemato-Oncologia, dando especial enfoque às terapias-alvo e aos anticorpos biespecíficos.

Sobre as terapêuticas dirigidas a alvos, a especialista referiu que estas “revolucionaram o tratamento de múltiplas neoplasias, oferecem maior precisão terapêutica, menos toxicidade e melhor qualidade de vida”. No caso dos alvos moleculares, permitem uma medicina mais personalizada. Relativamente aos anticorpos biespecíficos, estes “ligam a célula tumoral a linfócito T (CD3), promovendo citotoxicidade dirigida e têm uma elevada eficácia em Hematologia (leucemia linfoblástica aguda, mieloma múltiplo, linfomas)”, sublinhou.

A breve trecho, são aguardados com expetativa novas moléculas e combinações terapêuticas, tais como os triespecíficos, os ADC e as combinações com imunoterapia, as CAR-T combinadas e a integração com biomarcadores e medicina de precisão. A este respeito, Catarina Geraldes afirmou que “o futuro dos tratamentos em Oncologia é cada vez mais dirigido, específico e imunologicamente inteligente” e que “a chave está em identificar no alvo certo, para o doente certo, no momento certo”.

Impacto da CAR-T na qualidade de vida dos doentes

Para Mercedes Montoro-Lorite, do Hospital Clínic Barcelona, a avaliação da qualidade de vida dos doentes submetidos a terapêutica com células CAR-T “é fundamental para garantir o seu bem-estar e melhorar a sua experiência”.

A propósito do impacto desta terapia na qualidade de vida dos doentes, a enfermeira destacou que “as escalas padronizadas e validadas são ferramentas úteis para identificar as necessidades dos pacientes e monitorizar a sua resposta ao tratamento, permitindo uma atenção mais personalizada e eficaz”, adiantando que “os estudos de qualidade de vida demonstram uma trajetória temporal e dinâmica, em que à deterioração inicial nas primeiras semanas devido a toxicidades agudas e sequelas de tratamentos prévios se segue, habitualmente, uma tendência de melhoria progressiva com normalização dos valores base no primeiro mês e melhoria contínua a partir dos três e seis meses”.

Mercedes Montoro-Lorite concluiu que o enfermeiro especializado em Oncologia desempenha um papel fundamental na equipa multidisciplinar, nomeadamente na deteção precoce de complicações, sendo fundamental que se proceda a avaliações contínuas e específicas, por forma a melhorar os resultados e a qualidade de vida dos doentes. Esta figura tem “o poder de transformar a sobrevivência em bem-estar, unindo a sua experiência e competência clínica a uma foco humanizado, no sentido de promover uma recuperação integral e holística”.

Estratégias para minimizar as toxicidades medicamentosas

A gestão das toxicidades associadas à terapêutica com células CAR-T ou com anticorpos biespecíficos foi o tema abordado por Ana Calado, da ULS Santa Maria, que partilhou com os colegas de enfermagem as principais estratégias para minimizar este problema. Desde logo, ressalvou a enfermeira, a gestão destas toxicidades implica uma abordagem multidisciplinar, bem como uma compreensão abrangente do diagnóstico e tratamento da síndrome de libertação de citocinas e da síndrome de neurotoxicidade associada às células imunes efetoras por parte dos profissionais.

É ainda essencial, na ótica de Ana Calado, que a equipa de enfermagem esteja envolvida no processo, com conhecimento acerca da terapia e dos riscos associados. De salientar, ainda, que a monitorização frequente e a deteção precoce permitem a gestão atempada da toxicidade com cuidados de suporte rápidos e adequados.

A vivência na primeira pessoa

Nesta sessão, José Faustino, que teve um linfoma e foi tratado na da ULS Coimbra, partilhou a sua história e a sua experiência de quem recebeu terapêutica com células CAR-T. Depois de fazer quimioterapia, o doente foi submetido há cinco meses ao tratamento com CAR-T e diz: “notei logo a minha vida a normalizar aos poucos”. Não teve grandes intercorrências e atualmente diz sentir alguma fadiga/fraqueza, mas no geral refere sentir-se bem.