A braquiterapia – que com os avanços tecnológicos tem registado uma evolução significativa, tornando-se cada vez mais precisa, eficaz e segura no tratamento oncológico – foi o tema central da Mesa 1 do V Simpósio Ibérico de Radioncologia, que contou com o apoio da Sociedade Portuguesa de Radioterapia-Oncologia (SPRO) e foi moderada por Liliana Amorim, do IPO Porto e Pilar Fernández López, do Institut Català D’Oncologia (ICO), em Barcelona.
A utilização do ácido hialurónico na prevenção e tratamento da cistite rádica foi o tema abordado por Yasmina Castillo Tortosa, enfermeira do ICO, que começou por sublinhar o dano direto que a radiação causa na mucosa vesical: gera inflamação e comprometimento da barreira epitelial, o que resulta em aumento da permeabilidade, infiltração de células inflamatórias e liberação de mediadores químicos que perpetuam o dano tecidual e provocam sintomas urinários. Como tal, a cistite rádica é uma complicação decorrente do tratamento com radiações ionizantes em tumores pélvicos, que, devido à proximidade anatómica, afeta as células da bexiga. Ocorre em 23 a 80% dos pacientes e a sua gravidade depende do volume irradiado, da fracionamento e da dose total administrada, sendo que entre 5 a 8% dos pacientes desenvolvem hematúria severa.
O ácido hialurónico é um glicosaminoglicano natural, presente no tecido conjuntivo e mucosas, que contribui para a hidratação, lubrificação e regeneração tecidual. As suas propriedades anti-inflamatórias e de reparação da barreira epitelial fazem dele um agente potencial para a proteção da mucosa vesical. É utilizado no tratamento de condições urológicas, e está especialmente indicado para instilação vesical em pacientes com cistite intersticial ou outras patologias da bexiga. A cistite rádica, a par do manejo da síndrome da dor vesical e das infeções recorrentes do trato urinário, é uma das indicações para uso de ácido hialurónico.
Yasmina Castillo Tortosa explicou que, em casos de reirradiação, “a prevenção é essencial”, sendo que “o ácido hialurónico pode ajudar a prevenir a cistite radioinduzida ou sua gravidade”. Ainda de acordo com a enfermeira, “as instilações com ácido hialurónico permitem controlar os sintomas em pacientes com cistite rádica e, possivelmente, realizar tratamentos mais radicais com boa qualidade de vida”. Em jeito de conclusão, a preletora esclareceu que a cistite rádica é uma complicação comum da radioterapia externa e “não possui tratamento definitivo”. Como tal, “a escolha do tratamento dependerá da duração e da gravidade dos sintomas” e “o conhecimento e a aplicação dessa terapia por parte da equipa de enfermagem são fundamentais para o seu êxito”, concluiu.
Exemplo de uma abordagem inovadora
No âmbito dos cuidados de braquiterapia pós-ginecológica, Joaquina Valera Muñoz, enfermeira do ICO, falou sobre uma nova abordagem que consiste na utilização de moldes personalizados de dilatadores vaginais, partilhando os resultados de um ensaio piloto intitulado “Adesão ao uso de dilatadores vaginais personalizados em doentes tratadas com braquiterapia ginecológica endocavitária”.
O grande objetivo deste estudo foi “demonstrar que o fornecimento e aplicação de dilatadores vaginais personalizados às doentes as predispõe para uma maior adesão à dilatação em comparação com as recomendações verbais sobre o autocuidado”, explicou a enfermeira, acrescentando que “o benefício da utilização destes dispositivos personalizados melhorará a qualidade de vida e a esfera sexual dos doentes e, ao fornecer dilatadores na consulta de enfermagem, a adesão ao autocuidado e o autoconhecimento aumentarão”.
O trabalho permitiu concluir que “na prática hospitalar, são prestados poucos cuidados em relação à reabilitação vaginal associada aos efeitos do tratamento; por vezes, são os próprios doentes que solicitam este tipo de cuidados e conselhos de autocuidado; noutras situações, os pacientes não têm autoconfiança suficiente para verbalizar as suas dúvidas ou necessidades; é necessário criar espaços de confiança para ajudar as nossas pacientes, dar-lhes apoio e orientação, com o objetivo de recuperar e manter a saúde vaginal após o tratamento”.
Linhas de consenso precisam-se!
Por sua vez, Daniel Ferreira, da ESEnfTS/CESPU, alertou para a importância do desenvolvimento de linhas de consenso em Braquiterapia, fruto de uma gritante necessidade de padronização nesta área.
Segundo o enfermeiro – que em Peniche apresentou uma estrutura de proposta neste sentido – as linhas de consenso de Enfermagem em Braquiterapia são um documento “urgente”, enquanto “guias orientadoras da prática clínica que poderão ajudar a definir linhas de investigação”. Estas “não se esgotam nos enfermeiros com prática clínica em Braquiterapia e reforçam a necessidade de formação de base neste tipo de tratamento”.